Como foi evoluindo o combate à humidade nos edifícios

Desde sempre que os arquitectos têm tentado combater os problemas associados à humidade em edifícios. Vitrúvio (sec. I a.c.) já recomendava a utilização de paredes duplas de modo a minimizar a penetração das chuvas nas mesmas, e reboco hidráulico para a redução da ascensão capilar na base dos paramentos. Os arquitectos da renascença compreenderam também o benefício da utilização destas paredes, mas tal como os antigos, mostraram pouco interesse no estudo do problema.

A grande maioria dos edifícios construídos nos séculos XVII e XVIII não possuem qualquer protecção contra a humidade ascendente do solo, pois pouco foi feito até finais do séc. XlX, excepto certos aspectos de drenagem, ou afastamento das águas freáticas dos edifícios.

 

Grande parte do progresso atingido no séc. XlX deve-se à implementação do sistema de drenagem de águas pluviais na rede pública, nomeadamente em grandes cidades como Nova Iorque, Paris ou Londres.

Outros avanços foram feitos no século XIX. Na América, pedras de origem calcária ou granítica foram largamente utilizadas, especialmente em edifícios públicos, para prevenção da ascensão capilar do solo, bem como barreiras à penetração de água das chuvas.

O progresso feito de modo a compreender e controlar os problemas relativos à humidade pode ser analisado na publicação “The Architecture in Couuntry Houses”, publicado por Andrew Jackson Downing em 1850. Downing tinha plena consciência dos problemas relativos à água proveniente do solo, pois pode ler-se:

“… fundações… construídas em pedra e argamassa ordinária serão sempre alvo fácil de ascensão capilar… as argamassas correntes não oferecem qualquer impedimento à ascensão da água proveniente do solo. A solução para este problema é a construção das fundações com argamassas hidráulica.”

Downing notou também que “… em solos húmidos, a ascensão da água deve ser prevenida, antes de as fundações serem construídas, através de uma fiada de pedra, ou tijolo argamassado, precedida de uma camada de cimento ou argamassa de cal hidráulica no topo da fundação. O detalhe por ele recomendado é, nada mais do que o antecedente de um dos 5 processos hoje em dia conhecidos para combate a este tipo de anomalia – a introdução de barreiras estanques nos paramentos.

Ao mesmo tempo, foram experimentadas técnicas de impermeabilização de paredes pelo exterior. Alguns construtores impregnavam tijolos e pedras com soluções de gordura animal ou silicatos insolúveis provenientes da cal. Embora grande parte destas soluções se tenham mostrado ineficazes, no final do século começaram a ser introduzidas “regras de construção” relativas ao tratamento das águas provenientes do solo.

Nas primeiras décadas do século XX, a indústria da construção desenvolveu algumas soluções. Os drenos Knapen foram inventados em 1911. Inseridos horizontalmente na base da parede, a sua função era de evaporar a água nela depositada através da introdução de ar seco proveniente da atmosfera. Ao mesmo tempo, vários produtos e aditivos para alvenarias foram patenteados nos Estados Unidos.

Entre as guerras, foram pela primeira vez executados vários estudos relativos à ascensão capilar e ao aparecimento de eflorescências, formando uma base científica para a compreensão destes fenómenos.

 

Com o final da 2a Grande Guerra, deu-se início à era dos materiais sintéticos e alta tecnologia na indústria da construção.

Os silicones, inicialmente utilizados na impermeabilização de superfícies de estradas, começaram a ser experimentados em impermeabilizações de paredes. Na década de 60, na Inglaterra e Alemanha, misturas de silicone e silicone latex eram injectadas dentro das paredes em bandas horizontais de forma a constituírem barreiras contra a capilaridade. Novos materiais como folhas de polietileno, misturas de chumbo/betume e placas de amianto foram também largamente utilizados com a mesma função.

Nos Estados Unidos eram introduzidos produtos químicos e, por vezes, argila nos terrenos adjacentes às fundações com vista a travar a subida da humidade do solo para as paredes.

Os processos electro-osmóticos foram outra contribuição europeia para o problema. Estes sistema estabelece um campo eléctrico nas zonas onde é instalada a barreira. Tanto o sistema “activo” – que estabelece uma corrente directa – e o sistema “passivo” – que utiliza o potencial eléctrico natural gerado pela parede húmida e o solo, constituíam soluções eficazes.

Tal com aconteceu com vários produtos no séc. XIX, alguns dos tratamentos divulgados no séc. XX revelaram-se ineficazes ou inconclusivos. Na década de 70 tornou-se evidente a ineficácia dos drenos Knapen, muito utilizados desde a sua invenção. Os processos electro osmóticos – activo e passivo – também se mostraram ineficazes. As barreiras de silicone foram encontradas, em certos casos, a prejudicar a construção, ao invés de as proteger, e as injecções no solo eram também, geralmente, pouco eficientes.

Deste modo, os métodos mais eficazes utilizados em edifícios antigos foram a introdução das “barreiras” constituídas através de folhas de polietileno ou materiais tradicionais.

Para concluir, convém referir que os edifícios antigos, particularmente os que possuem cariz histórico, não devem ser vistos como alvo de testes de materiais não experimentados. De modo a evitarem-se experiências semelhantes às atrás descritas, e antes de se proceder a qualquer tipo de solução de reparação, há que compreender e analisar os tipos e as causas fundamentais dos problemas relativos à humidade. Os técnicos terão de estar aptos a executar diagnósticos e a seleccionar o tratamento adequado a cada situação.


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