Como diagnosticar Alzheimer

Como diagnosticar Alzheimer

Como se pode inferir do que já foi dito, na actualidade o diagnóstico da doença de Alzheimer continua a basear-se essencialmente na história clínica do doente, pelo que a presença de alguém que conheça bem o doente e de preferência conviva com ele diariamente é muito importante.

Pelo que é contado pelo doente e pelo acompanhante, é possível inferir, através do reflexo que essas alterações têm nas diversas tarefas, quais as alterações mais importantes, se memória, se linguagem, se desorientação no tempo e espaço, entre outras. É possível saber como é que estas alterações começaram e como evoluíram ao longo do tempo. No exame do doente é possível perceber se existe alguma doença que possa eventualmente justificar as queixas.

Após esta primeira abordagem puramente clínica é sempre necessário realizar exames complementares para assegurar a não-existência de uma causa para as queixas da doença.

Um estudo de sangue e de urina para excluir diversas doenças é sempre necessário, assim como um exame de imagem. Pelo menos uma tomografia computorizada deve ser feita. Este estudo permite excluir a existência de uma demência secundária.

Outros exames podem ajudar a consubstanciar o diagnóstico de doença de Alzheimer.

A avaliação neuropsicológica é um dos instrumentos importantes na avaliação da doença de Alzheimer. Esta avaliação é feita com um conjunto de testes que devem estar padronizados para a população em estudo (no nosso caso, para a população portuguesa) com valores próprios para a idade e a escolaridade. Cada teste avalia uma função específica. Por exemplo, pedir ao doente para decorar uma lista de palavras, uma lista de pares de palavras ou uma história permite avaliar a memória recente. Quando se pede ao doente para dizer quanto é uma dúzia, qual o país que faz fronteira com Portugal, em que dia é Natal, isso permite saber se o doente mantém informações bem apreendidas, a chamada memória semântica. Quando se pede ao doente para dizer todos os nomes de animais de quatro patas ou palavras começadas por P que se lembrar em um minuto, estamos a tentar avaliar a sua iniciativa. Desta forma é possível conhecer quais os domínios cognitivos mais atingidos e isso pode ser importante para decidir se o tipo de perda que o doente apresenta é a que aparece na doença de Alzheimer ou em qualquer outra doença. Existem testes curtos, que podem ser feitos em poucos minutos, que permitem ter uma ideia da gravidade da perda e ir avaliando essa perda ao longo do tempo; mas se é necessária uma análise mais detalhada, estes testes curtos não chegam e é
necessário uma avaliação longa. Esta demora muito mais tempo e que exige pessoas corri preparação e treino específicos. Por isso, estes exames não estão disponíveis com facilidade mas são extremamente úteis quando existem dúvidas de diagnóstico, muito particularmente na fase inicial da doença.

A imagem é essencial, como já foi dito, para afastar a hipótese de uma demência secundária. Por exemplo, quando na história do doente se suspeita de doença vascular cerebral, a imagem pode clarificar até que ponto a existência de enfartes cerebrais pode ser responsável pela demência. Mas é também importante no diagnóstico entre as demências primárias. A ressonância magnética cerebral pode dar um contributo muito importante, por exemplo, no caso da doença de Alzheimer, ao mostrar uma atrofia temporal mediana.

Outros exames de imagem podem ajudar no diagnóstico, mas a sua utilização não é de rotina. E exemplo disso a chamada imagem funcional, a qual é obtida após a injecção de um produto radioactivo; pode mostrar, por exemplo, as áreas em que cérebro não tem metabolismo normal; por exemplo o PET scan cerebral (tomografia por emissão de positrões) pode ser útil numa fase muito inicial da doença.

O doseamento da proteína tau e da A beta 42 exige a realização de uma punção lombar e está alterado na doença de Alzheimer.

Os testes genéticos são muito úteis nas doenças de início precoce e com história familiar da doença. Nos outros casos, o estudo da APOE é controverso. A existência de alelo APOE e4 torna o diagnóstico de doença de Alzheimer mais provável, mas a maioria dos autores entende que não acrescenta muito ao diagnóstico da doença e não deve ser feito por rotina.

Como já foi dito, recentemente autores sugeriram uma revolução no diagnóstico da doença de Alzheimer, visando a inclusão de doentes em ensaios clínicos de novos fármacos. Estes autores sugerem que seja incluída perante uma perda objectiva e progressiva de memória com as características próprias da doença de Alzheimer, associada a alterações sugestivas de doença de Alzheimer na ressonância cerebral ou no PET scan ou dos marcadores (proteína tau e A beta 42) no líquido céfalo-raquidiano obtido por punção lombar. Esta estratégia torna o diagnóstico da doença muito mais caro e não está testada no sentido de se saber qual a sua capacidade de fazer um diagnóstico correcto na grande maioria dos casos. Será necessário esperar para saber até que ponto esta estratégia é válida ou não.


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