Armazenamento do Vinho

A garrafeira familiar reveste-se do maior interesse, muito especialmente num país vitivinícola como Portugal, quer pelo prazer que pode proporcionar a sua organização e manutenção, quer pela economia que pode representar a aqui­sição do vinho em boas condições.

A existência de uma garrafeira é tam­bém uma prova de requinte e de consi­deração pelos convidados, uma vez que permite aos donos da casa oferecer aos seus convivas produtos criteriosamente escolhidos e, por vezes, por longo tempo conservados.

A escolha do local: Os vinhos neces­sitam de estar em repouso, pelo que se deve optar por um local não sujeito a grandes vibrações e com reduzida ilu­minação. Além disso, são de evitar infil­trações de água e acentuadas oscilações de temperatura. Assim, a cave ideal deve ser ampla, limpa, arejada mas sem correntes de ar, orientada se possível para norte, com uma humidade da ordem dos 70% e temperaturas entre 8 e 12°C ao longo de todo o ano; e tam­bém não deve guardar, juntamente com os vinhos, produtos ou mantimentos que lhes possam comunicar cheiros estranhos.

O posicionamento das garrafas é de extrema importância, pois dele depende a boa evolução e conservação dos vinhos, sobretudo se desejamos guarda-los durante bastante tempo. Nessas circunstâncias, a posição deitada é a única conveniente, mantendo-se assim a rolha sempre húmida, o que evita a sua contracção e a consequente entrada de ar na garrafa.

É boa norma manter os rótulos vira­dos para cima, o que permite uma mais fácil identificação do vinho, evitando-se manipulações desnecessárias, que são sempre perturbadoras, principalmente nos vinhos mais velhos, por deslocação dos sedimentos.

Em garrafeiras de maiores dimensões, também é útil colocar etiquetas que identifiquem os vinhos pelo menos por zonas de produção ou pelo seu tipo.

Os suportes para as garrafas podem ser feitos de qualquer tipo de material (cerâmico, madeira, metal), mas devem manter-se limpos e ser suficientemente sólidos, e, no caso de grandes conjun­tos, deve assegurar-se de que estão bem fixados às paredes.

Periodicamente, é aconselhável ins­peccionar as cápsulas e, em caso de necessidade, as próprias rolhas, sobre­tudo as das garrafas que se queiram guardar durante mais tempo. Já se disse que do seu bom estado depende a boa conservação do vinho.

No que respeita às garrafas que conte­nham aguardentes ou outros produtos, vínicos ou não, de elevado teor alcoó­lico (mais de 35°C), devem as mesmas ser conservadas de pé, ainda que o sis­tema de engarrafamento não seja de cortiça (plástico ou outros).

Um livro de garrafeira, desde que se mantenha em dia, é sempre um instru­mento de grande utilidade, pois permite um fácil controle das existências e a sua atempada renovação, para além de poder conter outras indicações que se julguem proveitosas (datas das entradas, preços, locais de compra, etc).

Selecção de produtos vínicos: Uma garrafeira não é necessariamente um mostruário de vinhos, mas deve, natu­ralmente, apresentar uma certa varie­dade.

A sua organização depende muito de critérios pessoais, que passam também pela capacidade e condições de armaze­namento de que se dispõe.

O preço dos vinhos tem também uma influência por vezes decisiva, pelo que comprar bem constitui um dos segre­dos de uma boa garrafeira.

De uma maneira geral, não se deve perder de vista que os vinhos são fun­damentalmente bebidos para acompa­nhar a comida e que devem ser escolhi­dos de acordo com ela.

Não fará assim sentido ter um só tipo de vinho, nem mesmo talvez ter vinhos de uma só região vinícola. Pelas mes­mas razões, tem de se ter em conta a idade do vinho, que deve variar con­soante o prato que acompanha.

Em resumo, nem sempre vinhos novos ou vinhos de idade, nem só vinhos brancos, roses ou tintos.

Vinho e comida devem harmonizar-se de forma a completarem-se, fazendo sobressair as suas qualidades, e nunca de modo a sobreporem-se ou a neutra­lizarem-se.

Como exemplo extremo, diríamos que um prato delicado de peixe não deve ser confrontado com um vinho tinto encorpado.

A quem pretenda fazer uma garrafeira indicar-se-ia, de uma maneira genérica, uma escolha o mais ampla possível no sentido de cobrir as principais regiões vinícolas nacionais de vinhos de mesa.

Há hoje uma tendência para servir também como aperitivo determinados tipos de vinho branco de mesa. Este facto não invalida a necessidade de uma boa garrafeira incluir os vinhos clássi­cos de aperitivo, como o Porto branco e seco, o Madeira seco e meio seco ou os vinhos típicos de aperitivo do Algarve.

É também natural a inclusão de vinhos que possam acompanhar as sobremesas e os doces, como é o caso dos vinhos generosos (Porto tinto do tipo Tawny e Vintage, Madeiras doces) e dos licorosos.

Já se disse que a escolha dos vinhos depende de múltiplos factores e, em última análise, de critérios e gostos pes­soais. No entanto, aqueles que preten­dem começar a organizar uma garrafeira sentem, por vezes, naturais dificuldades por falta de adequada informação.

Seguem-se algumas sugestões que podem ser úteis:

•     Existem revistas especializadas (Eno­logia, O Escanção), bem como publica­ções periódicas em alguns jornais, que constituem um valioso meio de infor­mação e de formação. Não é raro conte­rem também indicações sobre as melhores colheitas, preços e nomes de lojas especializadas em vinhos, para além da propaganda que nelas é inse­rida por muitos dos bons vinhos nacio­nais.

•     Realizam-se todos os anos concursos nacionais de vinhos (como, por exem­plo, os organizados pelo Instituto da Vinha e do Vinho), cujas classificações e listas dos vinhos concorrentes consti­tuem uma boa fonte de estudo.

•     Fazem-se periodicamente feiras do vinho, onde são oferecidas provas dos mesmos aos visitantes, que podem tomar contacto também com produto­res, distribuidores e com uma vastís­sima gama de produtos.

•     O recurso ao conselho de lojas espe­cializadas e ao de amigos já mais experi­mentados pode também ser uma boa ajuda.


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